Estudo investiga como diferentes adaptações biomecânicas permitiram o gigantismo dos saurópodes
Um novo estudo, publicado em 7 de outubro na Royal Society Open Science, investigou como diferentes características dos membros contribuíram para que os saurópodes sustentassem massas corporais extremas. O trabalho combinou modelagem tridimensional e análise de elementos finitos (AEF) para avaliar conjuntamente a forma dos fêmures, sua arquitetura interna, a presença de cartilagem articular e as mudanças de postura que ocorreram durante a evolução do grupo.
A análise de elementos finitos é uma técnica computacional amplamente utilizada na engenharia para simular como estruturas respondem à aplicação de forças. No estudo, modelos tridimensionais de fêmures de diferentes sauropodomorfos foram transformados em modelos biomecânicos, nos quais os pesquisadores puderam incorporar diferentes materiais e estruturas — como osso cortical, regiões internas do osso e cartilagem — e simular as cargas associadas à massa corporal. As análises permitiram comparar a distribuição de tensões, a energia de deformação e a rigidez estrutural entre diferentes animais.
Imagem: Modelos tridimensionais utilizados para investigar a influência da estrutura interna e dos tecidos articulares no comportamento mecânico dos fêmures. O modelo sólido (à esquerda) representa o fêmur inteiramente como osso compacto, enquanto o modelo nativo (à direita) incorpora a cavidade medular e a cartilagem articular nas extremidades do osso. Crédito: Silva Junior et al. (2026), Royal Society Open Science, CC BY 4.0.
Os resultados indicam que não existiu uma única solução biomecânica para o gigantismo. Os diplodocóides analisados, Diplodocus e Amargasaurus, apresentaram aumentos mais acentuados de tensão e energia de deformação com o aumento da massa corporal, enquanto os titanossauros analisados mostraram, em geral, menor sensibilidade mecânica ao aumento do tamanho. Os experimentos também demonstraram que os efeitos da arquitetura interna e da cartilagem dependiam da geometria de cada fêmur, indicando que essas características funcionavam de maneira integrada.
“Com este novo estudo, conseguimos integrar aspectos que tradicionalmente eram investigados de forma separada, como a forma do fêmur, sua microarquitetura interna e a cartilagem articular. Isso foi possível porque desenvolvemos modelos que incorporam diferentes tecidos e propriedades mecânicas em uma mesma estrutura, resultando em alguns dos modelos de elementos finitos mais complexos já produzidos para os membros de saurópodes”, explica Julian Silva Junior, primeiro autor do estudo, egresso do curso de Ciências Biológicas da UFTM, e pesquisador associado do Centro de Pesquisas Paleontológicas “Llewellyn Ivor Price” (Complexo Cultural e Científico de Peirópolis, PROEXT).
Imagem: Distribuição das tensões mecânicas nos fêmures de um elefante e de oito sauropodomorfos, calculada por análise de elementos finitos. As cores representam a intensidade das tensões e permitem visualizar como diferentes morfologias femorais responderam às cargas simuladas. Crédito: Silva Junior et al. (2026), Royal Society Open Science, CC BY 4.0.
Todas as etapas de modelagem tridimensional e análise de elementos finitos foram realizadas em uma workstation adquirida com financiamento da Jurassic Foundation.
Artigo: Built for bulk: posture, microanatomy and soft tissues shaped gigantism in Sauropoda
Autores: Julian C. G. Silva Junior e Felipe C. Montefeltro, da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Ilha Solteira, SP; Gabriel Souza Ferreira, da Universidade de São Paulo (USP), Ribeirão Preto, SP, e da Universidade de Tübingen, Alemanha; Agustin G. Martinelli, do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, Buenos Aires, Argentina; e Thiago da S. Marinho, da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) e do Centro de Pesquisas Paleontológicas L. I. Price, Peirópolis, Uberaba, MG
Periódico: Royal Society Open Science
Publicação: 7 de outubro de 2026
DOI: 10.1098/rsos.261186
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